terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Poeta e o político

O poeta usa a palavra pra dizer
O político usa a palavra pra esconder

O poeta esclarece no subjeto

O político encarece no objeto

A mente do poeta é profana

A mente do político é insana

O poeta é síndico

O político é cínico

O sonho do poeta é completar

O sonho do político é locupletar

O poeta encarna

O político escarna

O poeta sonha com a política

O político sanha na política

O poeta bate palmas
O político manda bater
A poesia do poeta é filha
A política do político é falha
O poeta excita
O político broxa
O poeta acaricia
O político atocha
Poeta que é poeta odeia político
Não pelo poeta ser avesso à política
Mas pelo político ser o avesso
Do avesso do avesso do avesso...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

...ao vazio que a língua sente
na boca da criança que perdeu o primeiro dente
ao vazio que meu filho sente

por ter um pai ausente
ao vazio da minha sobrinha

que nosso amor não sacia
ao vazio do universo
que seria maior sem nosso verso

ao vazio de todos nós
que é avesso ao preenchimento
deixo aqui o meu tributo

substrato do delírio
abstrato do afeto

a esse doce desespero

açucarado como bala
que dissolve na saliva do tempo...

a beleza flui e tem um quê de melancolia

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

a poesia é um chamamento
qualquer poesia...
um texto intenso profundo e apaixonado
faz eu ouvir minha mãe dizendo:
"meu filho tá frio aí fora vem pra dentro"
é eu criança tomando em minhas mãos
qualquer coisa sem sentido e dando-lhe vida
falando com ela...
a poesia é mãe da linguagem
o desenho veio antes da escrita
o canto antes da verborréia
qualquer expressão viceral
seja de alegria dor ou cólera
assume um tom musical
vejo isso no carnaval
no hospital e no futebol
a arte é o berço da cultura
no prelúdio o verbo era poesia
a meninice da humanidade
era habitada por artistas e poetas
em estado espontâneo

quinta-feira, 15 de julho de 2010

homópteros cicadídeos


sabedoria é uma muleta de compensação
inventada pela maturidade
que sabe que tá envelhecendo
e não vai sobrar nada
à merda com a sabedoria!
quero chegar lá no fim vazio de tudo
como uma cigarra
quando encontrarem minha capa
alguém vai dizer:
ih, o guru cantou-se todo!

terça-feira, 22 de junho de 2010

minimal

por alguns milímetros e iris
ela me fitou por alguns milésimos de segundo

a força desse instante teve o impacto de uma era

ela previu num lampejo e me mostrou
no lapso em que nosso olhar se cruzou

o que hoje vejo num tempo dilatado

que o ditado "a vida pensa em nós"

se confirma afirma e reafirma numa faísca

em princípio somos minimalistas...

e o que eu era se tornou no que hoje sou depois dela

tudo por causa daquele ínfimo de segundo

ela se tornou minha casa minha causa meu caso quase nos casamos

ainda bem que não mas estamos juntos e misturados

o tempo que se ampliou é radiação que me atingiu

daquela bomba de luz que ela lançou na minha alma
no momento em que me viu

quinta-feira, 3 de junho de 2010

...

dedicação é um caminho
de pedras perdas e pedidos...
dentro da concha que rola e rala
há uma pérola que nasceu de uma pedra...
que espera comprida! de entrega perdida
adotada por uma carapaça que a protege do que peça
para que ela pulse passe e possa algum dia quem sabe
ao sabor de um fio colar-se e calar-se com outras dela num colar
e ceder seu encanto ao colo daquela que aninhará no peito aquele eleito pro leito deleite e leite
e depois da madorna o asseio e de novo o adorno
colar-se ao peito e ouvir lá de dentro o pulsar de um mistério...
quem sabe esse encosto é também carapaça
que engravida outra igual que espera um fio pra se consolar
?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

...as coisas...
















o problema não esta nas coisas em si
e sim na qualidade da relação com as coisas...

terça-feira, 11 de maio de 2010

o desbunde vale mais

minha viagem não tem início nem fim
sou uma transitoriedade autônoma...

passo peso peço piso posso pulso

sensação de missão nenhuma
mas de rebanho no fluxo...

a massa a meça a missa a moça e o mousse

guiado por uma vitalidade irreverente e eterna

perecível mas restaurável que persevera...

a barca a beca a bica a boca e a burca

admiro os aborígenes australianos

os tuaregues norte africanos
os índios americanos
e os ciganos europeus
nômades...

a saca a seca a cica a soca
o soco o sulco e o suco
mas o Rio é meu estandarte cultural

meu amor pelos outros nasce aqui...
a baça à beça a biça a bossa e a buça

quarta-feira, 5 de maio de 2010

numa tarde insossa...

...pelo gato o velho sapato escapa
escarpa que afasta em largos passos
o peso morto no labirinto do tempo
que vez em quando se confunde
no entremeio e volta no vento
quando se dá ares ao pensamento
provando-se nem tão morto assim
quando ressuscitado em ti
numa tarde morna de emoções quase frias
brasas que insistem em não se tornar carvão nem tão pouco cinza
o devir que não se tornou urge e ruge no momento inoportuno
e nunca será oportuno seu rugir pleonástico hiperbólico metafórico
figurativo de linguagem que se vale da poesia pra ironizar o que não brilhou
mas acinzenta e joga água fria na tarde de tua quietude...
 
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