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a obscuridade
é o refúgio
da incompetência
a poesia é um chamamento
qualquer poesia...
um texto intenso profundo e apaixonado
faz eu ouvir minha mãe dizendo:
"meu filho tá frio aí fora vem pra dentro"
é eu criança tomando em minhas mãos
qualquer coisa sem sentido e dando-lhe vida
falando com ela...
a poesia é mãe da linguagem
o desenho veio antes da escrita
o canto antes da verborréia
qualquer expressão viceral
seja de alegria dor ou cólera
assume um tom musical
vejo isso no carnaval
no hospital e no futebol
a arte é o berço da cultura
no prelúdio o verbo era poesia
a meninice da humanidade
era habitada por artistas e poetas
em estado espontâneo
sabedoria é uma muleta de compensação
inventada pela maturidade
que sabe que tá envelhecendo
e não vai sobrar nada
à merda com a sabedoria!
quero chegar lá no fim vazio de tudo
como uma cigarra
quando encontrarem minha capa
alguém vai dizer:
ih, o guru cantou-se todo!
por alguns milímetros e iris
ela me fitou por alguns milésimos de segundo
a força desse instante teve o impacto de uma era
ela previu num lampejo e me mostrou
no lapso em que nosso olhar se cruzou
o que hoje vejo num tempo dilatado
que o ditado "a vida pensa em nós"
se confirma afirma e reafirma numa faísca
em princípio somos minimalistas...
e o que eu era se tornou no que hoje sou depois dela
tudo por causa daquele ínfimo de segundo
ela se tornou minha casa minha causa meu caso quase nos casamos
ainda bem que não mas estamos juntos e misturados
o tempo que se ampliou é radiação que me atingiu
daquela bomba de luz que ela lançou na minha alma
no momento em que me viu
dedicação é um caminho
de pedras perdas e pedidos...
dentro da concha que rola e rala
há uma pérola que nasceu de uma pedra...
que espera comprida! de entrega perdida
adotada por uma carapaça que a protege do que peça
para que ela pulse passe e possa algum dia quem sabe
ao sabor de um fio colar-se e calar-se com outras dela num colar
e ceder seu encanto ao colo daquela que aninhará no peito aquele eleito pro leito deleite e leite
e depois da madorna o asseio e de novo o adorno
colar-se ao peito e ouvir lá de dentro o pulsar de um mistério...
quem sabe esse encosto é também carapaça
que engravida outra igual que espera um fio pra se consolar?


o problema não esta nas coisas em si
e sim na qualidade da relação com as coisas...
minha viagem não tem início nem fim
sou uma transitoriedade autônoma...
passo peso peço piso posso pulso
sensação de missão nenhuma
mas de rebanho no fluxo...
a massa a meça a missa a moça e o mousse
guiado por uma vitalidade irreverente e eterna
perecível mas restaurável que persevera...
a barca a beca a bica a boca e a burca
admiro os aborígenes australianos
os tuaregues norte africanos
os índios americanos e os ciganos europeus
nômades...
a saca a seca a cica a soca o soco o sulco e o suco
mas o Rio é meu estandarte cultural
meu amor pelos outros nasce aqui...
a baça à beça a biça a bossa e a buça
...pelo gato o velho sapato escapa
escarpa que afasta em largos passos
o peso morto no labirinto do tempo
que vez em quando se confunde
no entremeio e volta no vento
quando se dá ares ao pensamento
provando-se nem tão morto assim
quando ressuscitado em ti
numa tarde morna de emoções quase frias
brasas que insistem em não se tornar carvão nem tão pouco cinza
o devir que não se tornou urge e ruge no momento inoportuno
e nunca será oportuno seu rugir pleonástico hiperbólico metafórico
figurativo de linguagem que se vale da poesia pra ironizar o que não brilhou
mas acinzenta e joga água fria na tarde de tua quietude...
ela abriu o tampo e me deu o espaço mulher da vida...
eu sou o tempo e entrei com tudonosso encontro trouxe eternidade ao momento e fomos...ela bailava um tango de ventre alerta rubro vibranteeu urrando um canto rito de coito em louvorfêmea pronta se abre como flor quente aconchegantepulsando ela foi escrevendo os termos de nosso contrato em cada gomo do meu pauselando nosso pacto com um sonoro gozoescandalosa dilatada e aflita me puxando pra dentroeu afoito atolado em sua lagoa um puto feliz(pleonasmo!)seu tesão é fluido que escoa e empoça em mimmergulhar em você é voltar pro meu mundotu és meu continente eu sou seu conteúdo
...a pena no papel
o dedo no teclado
na areia
no vidro embaçado
o grafite no tablado
o esprei na parede
o borrão na pedra
o giz no quadro
o pé na lua
na jaca
no pau da barraca
a mão na placa
a placa na via
o formão na madeira
a cara na tela
a tela no quadro
a cal no cão
a picareta na rocha
a tatuagem na bunda
o silk na blusa
a letra na música
a música na letra
o cd no espaço
o pincel no parachoque do caminhão
o verso no bloco
e o bloco na rua...
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